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Terça-feira, Novembro 29, 2022

O Manuscrito Voynich será um embuste?

Os Nossos Autores

João Bernardo

Theodore Kaczynski

Uma das explicações para o facto de o Manuscrito Voynich ter resistido tanto tempo a todas as tentativas de tradução ou interpretação é que não passa de um embuste criado pelo seu descobridor moderno o livreiro norte-americano Wilfrid Voynich em 1912. Um artigo de 2016 da News Scientist (https://www.newscientist.com/article/2106915-mystery-texts-language-like-patterns-may-be-an-elaborate-hoax/) referia – não pela primeira vez – essa possibilidade mas destacava que um método criptográfico relativamente simples e ao alcance de Wilfrid Voynich poderia explicar os padrões pseudo-linguísticos observáveis no manuscrito. Isto reforça a possibilidade de se tratar de um embuste moderno ou medieval em que o livreiro polaco tivesse sido uma vítima da mesma forma que tinha sido o comprador original do livro: o imperador Rudolfo II.

Se o texto do manuscrito é apenas um conjunto de caracteres sem significado agrupado de forma a parecer uma língua isso explicaria porque é que ninguém, nem mesmo recorrendo às formas mais modernos de tratamento informático e criptográfico da atualidade foi, ainda, capaz de o ler.

Medições de Carbono 14 já indicaram que se trata de um manuscrito escrito sobre pergaminho (do grego pergaméne e do latim pergamina ou pergamena) de pele de um bezerro nascido, com uma probabilidade de 95%, entre 1404 e 1435. A espécie foi estabelecida através de uma análise de proteínas em 2014 e a datação realizada em 2012. É certo que o livreiro pode ter adquirido pergaminho medieval e escrito sobre ele (é mais difícil e incerto medir a idade das tintas do manuscrito) ou que alguém, antes dele (antes de 1912) pode ter feito o mesmo e escrito o texto.

Se fosse Voynich a criar este muito bem elaborado embuste não teria chegado a este nível de falsificação à primeira tentativa nem esta deveria ser a sua primeira experiência. É verdade que o livreiro vendeu pelo menos uma falsificação que, posteriormente, foi atribuída a um “falsário espanhol” desconhecido. Mas se se tratou de uma falsificação porque esteve com o livro durante sete anos e não o tentou vender (acabando por falecer e o deixar para a mulher: que também não o colocou no mercado)? Se há “crime de falsificação” porque não houve benefício? Isto seria um argumento a favor de não se tratar de uma falsificação de Voynich mas e se for uma falsificação anterior? É certo que há pontos da história de Voynich que não batem certo: porque começou por falar que o manuscrito provinha de um “castelo no Sul da Europa”, depois num “castelo austríaco”, finalmente, na “Villa Mondragone” em Frascati (Itália)? Sendo um coleccionador de livros antigos tina acesso a material como pergaminhos por usar, da data certa, que poderia ter reutilizado mas não existem indícios claros de que estamos perante uma falsificação de Voynich. É claro que o livreiro poderia ter sido iludido por um contemporâneo ou por um falsificador entre 1404 e 1912. Com efeito, não existem provas cabais de que o manuscrito tenha sido referido antes de 1912: Há referências do século XVII a um manuscrito que tem sido associado ao Manuscrito Voynich mas nada que permita uma identificação realmente absoluta e incontestável. Com efeito, as referências podem ser a qualquer outro manuscrito misterioso e cifrado e há vários candidatos conhecidos e outros que, entretanto, se perderam.

Há muito que se sabe que determinadas características do texto são compatíveis com as de uma “língua natural”. Por exemplo, as distribuições de palavras e sílabas seguem o padrão linguístico conhecido por “Lei de Zipf”. Contudo, a investigação de Gordon Rugg da Universidade britânica de Keel indica que seria possível criar esses padrões com algumas técnicas criptográficas simples e o investigador demonstrou essa capacidade através de um conjunto e cartões perfurados que expunham partes de outros cartões contendo raízes, prefixos e sufixos usados no manuscrito. O facto desta simulação ser possível não prova – de per si – que o Manuscrito Voynich foi forjado mas é, certamente, um sinal nessa direcção.

O argumento foi, contudo, contestado por Marcelo Montemurro da Universidade de Manchester que afirmou que a sua análise estatística demonstrou que uma análise estatística comparando o manuscrito com outros escritos em línguas usadas no começo do século XV. Este investigador conclui que o manuscrito tem demasiados níveis de complexidade para poder ser obra de um único falsificador. Em suma: nada permite garantir que se trata, ou não, de uma engenhosa falsificação embora esteja convencido de que se o é, é uma falsificação extremamente bem feita e feita entre meados do século XV e os começos do século XX.

Para saber mais:
https://www.newscientist.com/article/2106915-mystery-texts-language-like-patterns-may-be-an-elaborate-hoax/#ixzz7Axhd7RGL
http://www.voynich.nu/extra/carbon.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_Zipf

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