As várias vagas do sobrevivencialismo

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O sobrevivencialismo não surge por criação espontânea no século XXI, na prática resume-se ao estilo de vida dos nossos antepassados, mas adoptado de modo consciente e racional como estilo de vida, ou passatempo, que nos permite fazer frente a qualquer imprevisto ou, levado ao seu extremo, de modo livre e auto-sustentado. Resumimos em seguida aquilo que consideramos terem sido as primeiras QUATRO vagas do sobrevivencialismo ao longo da História, ou seja quando este foi popular ao ponto de se tornar em fenómeno de massas.

PRIMEIRA VAGA: Regresso à Terra 

A 1ª vaga foi logo ali no final do século XIX e primórdios do século XX com o movimento do “regresso à terra”, nessa altura o sobrevivencialismo tinha como objectivo a autossustentabilidade e a independência pessoal, que é como quem diz: ter um pedaço de terra nosso era sinónimo de liberdade, evitava ter que trabalhar contra a nossa vontade como mero assalariado, permitia produzir a nossa própria comida e fazia a apologia de que se devia saber fazer um pouco de tudo, desde plantar, construir até caçar e consertar ferramentas;

SEGUNDA VAGA: Contracultura e Hippies

A 2ª vaga veio com o movimento de contracultura dos anos 50 e 60, com uma nova geração a querer abandonar as cidades, com os hippies a defender o apego à “mãe Terra” e a criação de várias comunidades autónomas tentando criar pequenas Utopias com regras e leis próprias, ou sem qualquer lei de todo. Surge também aqui a primeira divisão entre pacifistas e apologistas do porte de arma da primeira vaga, que o consideravam essencial quer para caçar quer para proteger o seu pedaço de terra;

TERCEIRA VAGA: Guerra Fria e Apocalipse Nuclear

A 3ª vaga do sobrevivencialismo surgiu nos anos 70 com a Guerra Fria a aquecer e o receio de um Apocalipse nuclear, é aqui que surge muita da mitologia acerca dos sobrevivencialistas, com os agora já clássicos ‘bunker’, o paramilitarismo, a criação de milícias armadas, um regresso à ênfase da posse de arma (agora mais para defesa pessoal que para a caça) e muitos dos estereótipos que chegaram até hoje, como o já citado bunker, as máscaras de gás, as reservas alimentares para vários meses ou anos, a fuga para o mato, etc.

QUARTA VAGA: Ao Vivo na Televisão

A 4ª vaga pode ser quase inteiramente inculcada a programas televisivos, quer de documentário como o “Preparados Para o Fim do Mundo” (Doomsday Preppers), quer reality shows de sobrevivência em situações e emergência, desde coisas mais credíveis até a disparates de pessoas largadas nuas no meio do mato, este tem cativado multidões urbanas a adoptarem o sobrevivencialismo quer como estilo de vida a tempo inteiro ou como mero passatempo, ao vivo tanto na televisão como no YouTube.

Seja em modo lobo solitário, familiar, comunitário, espiritual, pacifista, omnívoro, caçador-recolector, quinteiro, agricultor, permacultor, ecologista profundo, primitivista ou mero indivíduo à procura de emancipação e liberdade pessoal, a História do sobrevivencialismo é extremamente diversa e rica, enraizada numa imensidão de tradições que, a nosso ver, se complementam na perfeição. Na P&S tentaremos honrar todas elas, palavra de editor.

Flávio Gonçalves