João Bernardo

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João Bernardo Maia Viegas Soares nasceu no Porto em 1946. Foi militante na Resistência contra o fascismo e por causa da sua militância política foi-lhe negado o acesso às universidades portuguesas e perseguido pela PIDE, vendo-se condenado ao exílio. Escritor, pensador e historiador autodidacta, actualmente mantém grande actividade como conferencista em universidades brasileiras. Participou, desde muito jovem, em organizações comunistas clandestinas onde manifestava oposição radical à ditadura de Salazar. Em 1965 exilou-se em França. Em Paris aproximou-se de grupos maoístas. As suas inquietações intelectuais incentivaram-no ao autodidatismo. Explorava as possibilidades do ambiente académico sem, no entanto, poder dar sequência a estudos como aluno regular. Num contexto de grande agitação política e intelectual, permaneceu na França até 1974. Com a Revolução dos Cravos, em 25 de Abril de 1974, João Bernardo regressou a Portugal e, em Lisboa, ajudou a organizar o grupo que fundou o jornal «O Combate».

1. Em 1965, quando estudante de História da Universidade de Lisboa, envolveu-se numa discussão com o reitor da Universidade, Paulo Cunha, e acabou por ser acusado de agressão. Por este motivo e pela sua acção na contestação estudantil foi processado disciplinarmente, recebendo a pena de oito anos de exclusão de todas as universidades portuguesas. Em 1965-1966 foi preso três vezes e condenado em tribunal criminal com pena suspensa. De 1963 a 1966 foi militante do Partido Comunista Português (PCP). A partir de 1966 passou a militar na “reconstrução da organização maoísta”, que fora destruída pela polícia política PIDE. No final de 1967 João Bernardo entrou na clandestinidade e em Maio de 1968 decidiu-se pelo exílio, fugindo de Portugal.

2. Em Paris, (onde iria permanecer de 1968 a 1974), militou na “fracção maoísta do comunismo português”, estruturado no “pequeno Comité Marxista-Leninista Português”. Em 1969 entrou em divergência com a direcção deste grupo e redigiu as “Cartas de Tiago”, documentos nos quais defendia os seus pontos de vista. As “Cartas” foram a base programática do grupo que então fundou: os «Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas (CCRm-l)», que vieram a ter alguma implantação no interior do país a partir de 1970, nomeadamente na Universidade Técnica de Lisboa, em algumas fábricas da região de Lisboa e na Companhia Carris de Ferro de Lisboa. (Os CCRm-l foram quase destruídos pela polícia política em 1972-1973, mas a organização conseguiu sobreviver).

3. Em 1974, João Bernardo foi expulso dos CCRm-l que criara, sob acusações de trotskismo e de “ligações a grupos denunciados por militantes pró-chineses como agências directas da CIA”. Entretanto, quando os CCRm-l, reassumindo a orientação estalinista-maoísta original, deram origem à UDP, João Bernardo e outros antigos militantes do CCRm-l fundaram o jornal «Combate», publicado de 1974 até 1978, de tendência libertária, e que esteve muito ligado às ocupações de empresas e às comissões de trabalhadores.

4. Desde que se afastou do estalinismo maoísta (1973), João Bernardo filiou-se numa tradição do pensamento marxista que tem as suas origens no «comunismo de conselhos» representado por Karl Korsch, Anton Pannekoek, Herman Gorter, entre outros, no início do século XX, e apresenta uma visão crítica do capitalismo em várias obras, bem como do sistema soviético, qualificado por ele como «capitalismo de estado». Uma das suas teses é a teoria da classe dos gestores, que seria uma outra classe social além da burguesia e do proletariado.

Foi historiando e reflectindo sobre as bases societárias das lutas anti-capitalistas no seio das experiências socialistas contemporâneas e na própria experiência portuguesa que João Bernardo definiu o seu projecto de marxismo centrado no que chama “marxismo das relações sociais de produção” que, como programa teórico – prático, antepõe ao “marxismo das forças produtivas, paradigma dos partidos comunistas”.

5. João Bernardo depois de vários anos de estudos em Portugal, em outros países europeus e nos Estados Unidos, decidiu ir para o Brasil em 1984, a convite do professor Maurício Tragtenberg (1929- 1988), sociólogo e pedagogo. Ministrou cursos como professor convidado em várias universidades públicas brasileiras até 2009 e cursos livres em sindicatos, especialmente na CUT até 1992. Tem se dedicado à pesquisa em torno da crítica ao capitalismo, tais como o fascismo e seus desenvolvimentos contemporâneos; da formação do capitalismo a partir do desenvolvimento do regime senhorial da Idade Média; do sindicalismo; da teoria e da prática da administração; da teoria do Estado; da exploração do trabalho e dos métodos de organização do trabalho; e da história do movimento operário.

Em diversos artigos e mais de 20 livros publicados, João Bernardo aborda vários temas. “Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista” aborda a questão da reprodução do capitalismo e das tentativas de revolução socialista e as “ambiguidades do movimento operário”, de onde ele extrai a sua teoria da classe dos gestores (neste texto denominada “tecnocracia”)e a lei fundamental do modo de produção comunista, a “lei do institucional, a autogestão social”. Em “Marx Crítico de Marx”, o autor faz uma extensa análise das ambiguidades de Marx. A sua obra “Labirintos do Fascismo”, com cerca de 900 páginas, é uma análise pormenorizada do regime fascista.
Mais recentemente (2013), escreveu o ensaio “ A Sociedade Burguesa de um e outro Lado do Espelho” e “La Comédie humaine”.

Obra publicada:

Bernardo, João (1975). Para uma Teoria do Modo de Produção Comunista. Porto: Afrontamento
Bernardo, João (1977). Marx Crítico de Marx. Porto: Afrontamento (3 vols.)
Bernardo, João (1977). Luta de Classes na China. Lisboa: [s.n.]
Bernardo, João (1979). O Inimigo Oculto. Ensaio Sobre a Luta de Classes/Manifesto Anti-Ecológico. Porto: Afrontamento
Bernardo, João (1987). Capital, Sindicatos, Gestores. São Paulo: Vértice
Bernardo, João (1990). Crise da Economia Soviética. Coimbra: Fora do Texto (2ª ed. Aparecida de Goiânia: Escultura, 2017)
Bernardo, João (1991). Economia dos Conflitos Sociais 1ª ed. São Paulo/Porto: Cortez/Afrontamento (2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009; 3ª ed. Lisboa: Edição do Autor, 2015)
Bernardo, João (1991). Dialéctica da Prática e da Ideologia. São Paulo/Porto: Cortez/Afrontamento
Bernardo, João. Poder e Dinheiro: do Poder Pessoal ao Estado Impessoal no Regime Senhorial, Séculos V-XV. Porto: Afrontamento (3 vols.: 1995, 1997, 2002)
Bernardo, João (1998). Estado: a Silenciosa Multiplicação do Poder. São Paulo: Cortez
Bernardo, João (2000). Transnacionalização do Capital e Fragmentação dos Trabalhadores: Ainda Há Lugar Para os Sindicatos?. São Paulo: Boitempo
Bernardo, João (2003). Labirintos do Fascismo: Na Encruzilhada da Ordem e da Revolta. Porto: Afrontamento (2ª ed. Lisboa: Edição do Autor, 2015)
Bernardo, João (2004). Democracia Totalitária: Teoria e Prática da Empresa Soberana. São Paulo: Cortez
Bernardo, João; Pereira, Luciano (2008). Capitalismo Sindical. São Paulo: Xamã (São Paulo: Xamã, 2008)
Bernardo, João (2013). A Sociedade Burguesa de Um e Outro Lado do Espelho / Os Sentidos das Palavras. Lisboa: Edição do autor

Biografia da autoria de Helena Pato, como consta em Antifascistas da Resistência.

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