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Quinta-feira, Setembro 29, 2022

A Guerra e os Anarquistas: Perspectivas Anti-Autoritárias na Ucrânia

Os Nossos Autores

João Bernardo

Theodore Kaczynski

O texto abaixo foi publicado originalmente em língua inglesa no portal Crimeth!nc. e em língua francesa no Le Monde Libertaire, a tradução à língua portuguesa é nossa e teve por base a versão inglesa.

Este texto foi composto em conjunto por vários activistas anti-autoritários da Ucrânia. Não representamos apenas uma organização, mas unimos esforços para escrever este texto e nos prepararmos para uma possível guerra.
Para além de nós, o texto foi revisto por mais de dez pessoas, incluindo participantes dos eventos descritos no texto, jornalistas que verificaram a fidelidade das nossas afirmações e anarquistas da Rússia, da Bielorrússia e da Europa. Recebemos muitas correcções e clarificações de modo a redigir o texto o mais objectivamente possível.
Caso irrompa a guerra, não sabemos se o movimento anti-autoritário irá sobreviver, mas tentaremos sobreviver. Entretanto, este texto é uma tentativa de disponibilizar em linha as experiências que acumulamos.
De momento, o mundo debate activamente a possibilidade de uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Temos de clarificar que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia já decorre desde 2014. Mas comecemos pelo princípio.

Protestos Maidan em Kiev

Em 2013, irromperam protestos em massa na Ucrânia, espoletados pela Berkut (forças especiais da polícia) ao agredir manifestantes que estavam insatisfeitos pela recusa do então presidente Viktor Yanukovych em assinar um acordo de associação à União Europeia. Estas agressões funcionaram como um apelo à acção junto de muitos segmentos da sociedade. Tornou-se claro para todos que Yanukovych tinha ultrapassado os limites. Os protestas acabaram por fazer com que o presidente fugisse.
Na Ucrânia, estes eventos são apodados de “Revolução da Dignidade”. O governo russo apresenta-o como um golpe de Estado nazi, um projecto do Departamento de Estado dos EUA e por aí fora. Os manifestantes em si eram uma amálgama: activistas de extrema-direita com os seus símbolos, líderes liberais a falar acerca de valores europeus e de integração europeia, ucranianos comuns que se ergueram contra o governo, alguns esquerdistas. O sentimento anti-oligarca dominou os manifestantes, embora oligarcas que não gostavam de Yanukovych tenham financiado o protesto por ele, juntamente com o seu ciclo mais próximo, ter tentado monopolizar os principais negócios durante o seu mandato. Quer isto dizer – para outros oligarcas, o protesto representou uma oportunidade para salvarem os seus negócios. Também participaram no protesto os representantes de muitas micro e pequenas empresas uma vez que Yanukovych não lhes permitia trabalhar livremente, exigindo-lhes dinheiro. As pessoas comuns estavam insatisfeitas com o alto nível de corrupção e conduta arbitrária por parte da polícia. Os nacionalistas que se opunham a Yanukovych na base dele ser um político pró-russo afirmaram-se de modo relevante. Os expatriados bielorrussos e russos juntaram-se aos protestos, com a percepção de que Yanukovych era amigo dos ditadores bielorrusso e russo, Alexander Lukashenko e Vladimir Putin.
Se viram os vídeos da manifestação Maidan, devem ter reparado que o grau de violência era elevado; os manifestantes não tinham para onde retirar, portanto tiveram que combater até ao fim. O Berkut atirou granadas de percussão com roscas de parafusos cujos estilhaços causavam feridas, atingindo pessoas nos olhos; razão pela qual houve muitos feridos. No desfecho final do conflito, as forças de segurança utilizaram armamento militar – matando 106 manifestantes.
Em reacção, os manifestantes fizeram as suas próprias granadas e explosivos artesanais e levaram armas para a Maidan. A produção de cocktails Molotov assemelhava-os a pequenas divisões.

Nos protestos Maidan de 2014, as autoridades utilizaram mercenários (titushkas), entregaram-lhes armas, coordenaram-nos e tentaram utilizá-los como sendo uma força leal organizada. Houve combates com eles que envolveram paus, martelos e facas.
Ao contrário da opinião de que o Maidan foi uma “manipulação por parte da UE e da NATO”, os defensores da integração europeia apelaram a protestos pacíficos, apodando os manifestantes mais militantes de fantoches. A UE e os EUA criticaram a ocupação de edifícios governamentais. Claro, as forças e organizações “pró-ocidentais” participaram no protesto, mas não controlaram todo o protesto. Várias forças políticas, incluindo a extrema-direita, participaram activamente no movimento e tentaram ditar a sua agenda. Rapidamente levaram a melhor e tornaram-se numa força de organização, graças ao facto de terem criado as primeiras unidades de combate e terem convidado todas as pessoas a juntarem-se a eles, treinando-os e orientando-os.
Contudo, nenhuma das forças era completamente dominante. A principal tendência era ser uma mobilização de protesto espontânea contra o regime corrupto e impopular de Yanukovych. Talvez possamos apodar a Maidan como sendo mais uma das muitas “revoluções furtadas”. Os sacrifícios e esforços de dezenas de milhar de pessoas comuns foram usurpados por uma mão cheia de políticos que assim chegaram ao poder e controlaram a economia.

O Papel dos Anarquistas nos Protestos de 2014

Apesar do facto do anarquismo ter uma longa história na Ucrânia, durante o reinado de Estaline todos os que estavam de algum modo ligados aos anarquistas foram reprimidos e o movimento desfaleceu e, consequentemente, cessou qualquer transferência de experiência revolucionária. O movimento começou a recuperar nos anos 80 graças ao esforço dos historiadores, e nos anos 2000 obteve um grande impulso graças ao desenvolvimento das subculturas e do anti-fascismo. Mas em 2014, ainda não estava pronto para um desafio histórico a sério.
Antes do início dos protestos, os anarquistas eram activistas individuais ou dispersos em pequenos grupos. Poucos defendiam que o movimento devia ser organizado e revolucionário. Das organizações mais conhecidas que se estavam a preparar para eventos destes, havia a Confederação Revolucionária de Anarco-Sindicalistas Makhno (RCAS de Makhno), mas mal começaram os motins dissolveu-se, uma vez que os seus integrantes não conseguiram desenvolver uma estratégia para a nova situação.
Os eventos da Maidan foram uma situação parecida com as forças especiais a entrarem-nos em casa e termos de tomar uma acção decisiva, mas o nossos arsenal resumir-se a letras punk, veganismo, livros centenários e, na melhor das hipóteses, à experiência de ter participado em anti-fascismo de rua e em conflitos sociais locais. Consequentemente houve muita confusão, à medida que as pessoas tentavam compreender o que se estava a passar.
Na altura, não foi possível formar uma visão unificadora da situação. A presença da extrema-direita nas ruas desencorajou muitos anarquistas de apoiar os protestos, tal como também não quiseram estar ao lado dos nazis no mesmo lado das barricadas. Tal trouxe muita polémica ao movimento; algumas pessoas acusaram aqueles que decidiram juntar-se aos protestos de fascismo. Os anarquistas que participaram nos protestos estavam insatisfeitos com a brutalidade da polícia e com o próprio Yanukovych e o seu posicionamento pró-russo. Contudo, não conseguiram ter um impacto relevante nos protestos, uma vez que vinham de fora.
No final, os anarquistas participaram na revolução Maidan a título individual e em pequenos grupos, maioritariamente em iniciativas voluntaristas/não-militantes. Passado algum tempo, decidiram cooperar e criar a sua própria “centena” (um grupo de combate com 60-100 pessoas). Mas no decorrer do registo da unidade (uma procedimento obrigatório na Maidan), em minoria os anarquistas foram dispersos pela extrema-direita armada. Os anarquistas continuaram, mas já sem tentarem criar quaisquer grupos organizados de grande dimensão.
Entre aqueles mortos na Maidan estava o anarquista Sergei Kemsky que, ironicamente, foi galardoado a título póstumo como Herói da Ucrânia. Foi abatido por um atirador furtivo na fase mais crítica do confronto com as forças de segurança. Durante os protestos, Sergei divulgou um apelo entre os manifestantes com o título “Conseguem ouvir, Maindan?” no qual delineava modos possíveis para criar a revolução, realçando os aspectos da democracia directa e da transformação social. O texto encontra-se disponível em língua inglesa aqui.

Reunião de uma brigada anarquista.

O Início da Guerra: A Anexação da Crimeia

O conflito armado com a Rússia começou há oito anos na noite de 26-27 de Fevereiro de 2014, quando o edifício do Parlamento da Crimeia e o Conselho de Ministros foram ocupados por homens armados não identificados. Envergavam armas, uniformes e equipamento russos, mas não tinham quaisquer símbolos do Exército russo. Putin não reconheceu a participação de militares russos nesta operação, embora o tenha admitido pessoalmente no documentário propagandístico “Crimeia: A Via da Pátria”.

Homens armados com uniformes e sem insígnias a bloquear uma unidade militar da Ucrânia na Crimeia a 9 de Março de 2014.

Aqui temos que compreender que no tempo de Yanukovych, o Exército ucraniano estava em péssimo estado. Sabendo que o Exército regular russo tinha 220.000 soldados a operar na Crimeia, o governo provisório não se atreveu a confrontá-lo.
Depois da ocupação, muitos residentes lidaram com uma repressão que se mantém até hoje. Os nossos camaradas também foram reprimidos. Podemos resumir alguns dos casos mais graves. O anarquista Alexander Kolchenko foi detido juntamente com o activista pró-democracia Oleg Sentsov e transferidos para a Rússia a 16 de Maio de 2014; cinco anos mais tarde, foram libertos como resultado de um intercâmbio de prisioneiros. O anarquista Alexei Shestakovich foi torturado, sufocado com um saco de plástico na cabeça, espancado e ameaçado com represálias; conseguiu fugir. O anarquista Evgeny Karakashev foi detido em 2018 por uma partilha na VKontakte (uma rede social); ainda se encontra sob custódia.

O anarquista Alexander Kolchenko após o intercâmbio de prisioneiros.

Desinformação

Manifestações pró-Rússia foram levadas a cabo nas cidades de língua russa próximas da fronteira russa. Os participantes receavam a NATO, os nacionalistas radicais e a repressão de que era alvo a população de língua russa. Depois do colapso da URSS, muitos lares na Ucrânia, Rússia e Bielorrússia mantinham laços familiares, mas os eventos da Maidan causaram uma séria divisão nas relações pessoais. Aqueles que viviam fora de Kiev e viam canais russos estavam convencidos que Kiev tinha sido capturada pela junta nazi e que estavam a decorrer purgas junto da população de língua russa que lá residia.
A Rússia lançou uma campanha de propaganda com a seguinte mensagem: “vingadores”, i.e., nazis, estão a caminho de Donetsk vindos de Kiev, querem destruir a população de língua russa (embora Kiev seja também uma cidade de língua predominantemente russa). Na sua desinformação os propagandistas utilizaram fotos da extrema-direita e espalharam todo o tipo de notícias falsas. No decorrer das hostilidades, apareceu um dos embustes mais famosos: a dita crucificação de um rapaz de três anos que, alegadamente, fora pregado a um tanque e arrastado estrada fora. Na Rússia, esta história foi emitida nos canais federais e tornou-se viral na Internet.

Notícias falsas num canal russo. Uma mulher fala acerca das execuções que viu e a crucificação de uma rapaz de três anos.

Em 2014, na nossa opinião, a desinformação desempenhou um papel crucial no desenvolvimento do conflito armado: alguns residentes de Donetsk e Lugansk ficaram com medo de serem mortos, por isso pegaram em armas e chamaram as tropas de Putin.

Conflito Armado no Leste da Ucrânia

“A guerra foi engatilhada”, nas suas próprias palavras, por Igor Girkin, coronel da FSB (agência de segurança do Estado, sucessora da KGB) da Federação Russa. Girkin, apoiante do imperialismo russo, decidiu radicalizar as manifestações pró-Rússia. Cruzou a fronteira com um grupo armado de russos e (a 12 de Abril de 2014) ocupou o edifício do Ministério da Administração Interna em Slavyansk para aceder ao armamento. As forças de segurança pró-russas começaram a juntar-se a Girkin. Quando surgiu a informação acerca dos grupos armados de Girkin, a Ucrânia anunciou uma operação de contraterrorismo.

Parte da sociedade ucraniana determinada a proteger a soberania nacional, ao perceber que o Exército tinha pouca capacidade, organizou um vasto movimento de voluntários. Aqueles que tinham alguma competência em questões militares tornaram-se instrutores ou formaram batalhões de voluntários. Algumas pessoas juntaram-se ao Exército regular, aos batalhões de voluntários e ao voluntariado humanitário. Juntaram donativos para armamento, comida, munições, combustível, transportes, aluguer de viaturas civis, e coisas do género. Era frequente os participantes dos batalhões de voluntários estarem mais bem equipados que os soldados do Exército estatal. Estes destacamentos demonstraram um nível significativo de solidariedade e auto-organização e na realidade substituíram as funções do Estado na defesa territorial, permitindo que o Exército (mal equipado na altura) conseguisse resistir ao inimigo.
Os territórios controlados pelas forças pró-russas começaram rapidamente a encolher. Então o Exército regular russo interveio.
Podemos destacar alguns pontos determinantes na cronologia:
1. Os militares ucranianos perceberam que armas, voluntários e especialistas militares estavam a vir da Rússia. Portanto, a 12 de Julho de 2014, começaram uma operação na fronteira ucraniano-russa. Contudo, durante a sua marcha, os militares ucranianos foram atacados pela artilharia russa e a operação falhou. As forças armadas tiveram um elevado número de baixas.
2. Tentativa de ocupação de Donetsk pelos militares ucranianos. Enquanto avançavam, foram cercados pelas tropas regulares russas nos arredores de Ilovaisk. Pessoas que conhecemos, que faziam parte de um dos batalhões de voluntários, foram também capturadas. Viram os militares russos em primeira mão. Passados três meses, conseguiram resultar graças a um intercâmbio de prisioneiros de guerra.
3. O Exército ucraniano controlou a cidade de Debaltseve, com um grande interface ferroviário. Isto interrompeu a ligação entre Donetsk e Lugansk. Na véspera das negociações entre Poroshenka (presidente da Ucrânia na altura) e Putin, que supostamente dariam início a um cessar-fogo de longa duração, os posicionamentos ucranianos foram atacados por várias unidades com apoio das tropas russas. O Exército ucraniano foi novamente cercado, sofrendo grande número de baixas.

Combatentes voluntários em operações em Ilovaisk em 2014.

Neste exacto momento (Fevereiro de 2022), ambos os lados concordaram num cessar-fogo e numa ordem de “paz e apaziguamento” que se tem mantido, embora com violações permanentes. Morrem várias pessoas todos os meses.
A Rússia nega a presença de tropas regulares russas e o fornecimento de armas aos territórios não controlados pelas autoridades ucranianas. Os militares russos capturados afirmam que estavam de alerta para participar num exercício, e só quando chegaram ao destino é que compreenderam que estavam no meio da guerra na Ucrânia. Antes de cruzar a fronteira removeram as insígnias do Exército russo, como os seus colegas na Crimeia. Na Rússia, os jornalistas têm encontrado cemitérios de soldados caídos, mas toda a informação em redor das suas mortes é desconhecida: o epitáfio nas suas lápides só indica a data das suas mortes em 2014.

Apoiantes das Repúblicas não Reconhecidas

A base ideológica dos opositores à Maidan era também diversa. As principais ideias unificadoras eram o descontentamento com a violência contra a polícia e a oposição aos motins em Kiev. As pessoas que cresceram na narrativa cultural russa, filmes e música, receavam a destruição da língua russa. Os apoiantes da URSS e entusiastas da sua vitória na Segunda Guerra Mundial acreditavam que a Ucrânia se devia alinhar com a Rússia e estavam descontentes com a insurreição dos nacionalistas radicais. Os entusiastas do Império russo viram os protestos Maidan como uma ameaça ao território do Império russo. Os ideais destes aliados podem explicar-se nesta foto que demonstra a bandeira da URSS, do Império Russo e a faixa de São Jorge, símbolo da vitória na Segunda Guerra Mundial. Podemos apodá-los de conservadores autoritários, apoiantes da velha ordem.

Bandeiras da URSS, do Império Russo e a faixa de São Jorge, símbolo da vitória na Segunda Guerra Mundial.

O lado pró-russo consistia de polícia, empreendedores, políticos e militares que simpatizavam com a Rússia, cidadãos comuns assustados pelas notícias falsas, vários indivíduos de extrema-direita, incluindo patriotas russos e vários tipos de monárquicos, imperialistas pró-russos, o Grupo de Trabalho “Rusich”, o grupo PMC (Empresa Militar Privada) “Wagner”, incluindo o conhecido neo-nazi Alexei Milchakov, o recém-falecido Egor Prosvirnin, o fundador do projecto de comunicação social chauvinista e nacionalista russo “Sputnik e Pogrom” e muitos outros. Havia também esquerdistas autoritários, que celebram a URSS e a sua vitória na Segunda Guerra Mundial.

Ascensão da Extrema-Direita na Ucrânia

Como descrevemos, a extrema-direita conseguiu angariar simpatia durante a Maidan organizando unidades de combate e ao estar disposta a confrontar fisicamente a Berkut. A presença de armas militares permitiu-lhes manter a sua independência e a obrigar outros a reconhecerem-nos. Apesar de envergarem símbolos descaradamente fascistas como suásticas, a runa wolfsangel, cruzes célticas e insígnias das SS, foi difícil desacreditá-los, pois a necessidade de combater as forças do governo Yanukovych fez com que muitos ucranianos apelassem à colaboração com eles.
Depois da Maidan, a direita suprimiu activamente as manifestações das forças pró-russas. No início das operações militares, começaram a formar batalhões de voluntários. Um dos mais famosos é o batalhão “Azov”. No princípio, consistia de 70 combatentes; agora é um regimento de 800 pessoas com os seus próprios veículos blindados, artilharia, companhia de tanques e um projecto separado, de acordo com os padrões da NATO, de uma escola de sargentos. O batalhão Azov é uma das unidades de combate mais eficazes do Exército ucraniano. Houve também outras formações militares fascistas como a Unidade de Voluntários Ucranianos “Sector Direito” e a Organização dos Nacionalistas Ucranianos, mas são menos conhecidos.
Como consequência, a direita ucraniana ganhou má reputação na comunicação social russa. Mas muitos na Ucrânia acharam que o que era odiado na Rússia podia ser símbolo da luta ucraniana. Por exemplo, o nome do nacionalista Stepan Bandera, considerado como colaborador nazi na Rússia, foi activamente utilizado pelos manifestantes como forma de provocação. Alguns apodaram-se de judaico-banderanos para trollar apoiantes das teorias da conspiração judaica/maçónica.
Com o passar do tempo, a trollagem descontrolou-se. Os direitistas começaram descaradamente a utilizar símbolos nazis; os apoiantes normais do Maidan começaram a dizer que eles próprios eram banderanos que comiam bebés russos e fizeram memes a preceito. A extrema-direita entrou no sistema: foram convidados a participar em programas de televisão e noutras plataformas de comunicação social empresarial, onde eram apresentados como patriotas e nacionalistas. Os liberais que apoiaram a Maidan ficaram do seu lado, acreditando que os nazis eram um embuste inventado pela comunicação social russa. Entre 2014 e 2016, qualquer um que estivesse disposto a combater era agraciado, fosse nazi, anarquista, líder de um grupo de crime organizado ou políticos que não cumpriam nenhumas das suas promessas.

Combatentes da extrema-direita com uma suástica e a bandeira da NATO. O batalhão Azov tem uma atitude negativa para com a NATO; actualmente os EUA não abastece o Azov de armamento.

O crescimento da extrema-direita deve-se ao facto de estarem mais bem organizados para lidar com situações críticas e serem capazes de sugerir métodos eficazes para combater outros rebeldes. Os anarquistas providenciaram algo semelhante na Bielorrússia, onde também conseguiram cativar a simpatia do público, mas não numa escala tão relevante como a extrema-direita na Ucrânia.
Em 2017, depois de começar o cessar-fogo e a necessidade de combatentes radicalizados ter diminuído, o SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia) e o governo estatal cooptaram o movimento da direita, encarcerando ou neutralizando todos os que tinham uma perspectiva “anti-sistema” ou independente no movimento de direita – incluindo Oleksandr Muzychko, Oleg Muzhchil, Yaroslav Babich e outros.
Actualmente, ainda é um movimento grande, mas a sua popularidade está num patamar comparativamente mais baixo e os seus líderes estão ligados aos serviços de segurança, polícia e aos políticos; já não representam uma força política realmente independente. O debate acerca do problema da extrema-direita está a tornar-se frequente no campo democrático, onde as pessoas começam a compreender a simbologia e as organizações com que estão a lidar, em vez de silenciosamente descartarem quaisquer preocupações.

Actividade Anarquista e Anti-Fascista Durante a Guerra

Com o irromper das operações militares, surgiu uma divisão entre aqueles que eram pró-ucranianos e aqueles que apoiam as ditas RPR/RPL (“República Popular de Donetsk” e “República Popular de Lugansk”).
Houve um sentimento disseminado de “não à guerra” no seio da cena punk durante os primeiros meses da guerra, mas não durou muito. Vamos analisar os campos pró-ucraniano e pró-russo.

Pró-Ucranianos

Devido à ausência de uma organização de massas, os primeiros voluntários anarquistas e anti-fascistas foram para a guerra como combatentes individuais, socorristas e voluntários. Tentaram formar a sua própria unidade, mas devido à falta de conhecimentos e recursos esta tentativa não obteve sucesso. Alguns juntaram-se mesmo ao batalhão Azov e à ONU (Organização dos Nacionalistas Ucranianos). As razões foram mundanas: juntaram-se às tropas mais acessíveis. Consequentemente, algumas pessoas converteram-se às políticas da direita.

Anti-fascistas a receber treino do Sector Direito [Pravy Sektor – NDT] na base em Desna. Há que realçar que esta foto inclui dos anti-fascistas de Moscovo que se juntaram ao conflito armado.

Pessoas que não participaram em combate angariaram fundos para a reabilitação de pessoas feridas no Leste e para a construção de um abrigo anti-bomba num jardim de infância próximo da linha da frente. Houve também uma ocupação baptizada de “Autonomia” em Kharkiv, um centro social e cultural assumidamente anarquista; na altura concentraram-se em dar apoio aos refugiados. Providenciaram alojamento e um mercado realmente livre permanente, assessorando os recém-chegados, indicando-lhes recursos e organizando actividades educativas. Além disto, o centro tornou-se num sítio para debates teóricos. Infelizmente, em 2018, o projecto deixou de existir.
Todas estas acções foram iniciativas de indivíduos ou grupos. Não fizeram parte de um delineamento estratégico comum.
Um dos fenómenos mais relevantes dessa altura foi uma organização radical nacionalista bastante grande, “Autonomnyi Opir” (Resistência Autónoma). Começaram a virar à esquerda em 2012; em 2014, já tinham virado tanto à esquerda ao ponto dos seus membros se intitularem de “anarquistas”. Enquadravam o seu nacionalismo como uma luta pela “liberdade” e um contrabalanço ao nacionalismo russo, utilizando o movimento zapatista e os curdos como exemplos a seguir. Quando comparados com os outros projectos da sociedade ucraniana, eram vistos como aliados próximos, por isso alguns anarquistas colaboraram com eles, enquanto que outros criticaram esta colaboração e a própria organização. Alguns membros da RA também participaram activamente nos batalhões de voluntários e tentaram desenvolver o ideal do “anti-imperialismo” entre os militares. Defenderam também o direito de as mulheres participarem na guerra; as militantes da RA participaram nas operações de combate. A RA auxiliou os centros de treino a treinarem combatentes e socorristas, voluntariaram-se para o Exército e organizaram o centro social “Cidadela” em Lviv onde acomodaram refugiados.

Moscovo, 2014: Anarquistas marcham contra a agressão russa.

Pró-Russos

O imperialismo russo moderno ergue-se sobre a percepção de que a Rússia é a sucessora da URSS – não no seu sistema político, mas no aspecto territorial. O regime de Putin vislumbra a vitória soviética na Segunda Guerra Mundial não como uma vitória ideológica sobre o nazismo, mas como uma vitória sobre a Europa que demonstra o poderio da Rússia. Na Rússia e nos países que controla, a população tem menos acesso à informação, por isso a máquina propagandística de Putin não se dá ao trabalho de criar conceitos políticos complexos. A narrativa é essencialmente esta: os EUA e a Europa tinham medo da poderosa URSS, a Rússia é sucessora da URSS e todo o território da ex-URSS é russo, os tanques russos entraram em Berlim, o que significa que “o conseguimos fazer outra vez” e iremos mostrar à NATO quem é mais forte aqui, a razão pela qual a Europa está “a apodrecer” deve-se a todos os gays e imigrantes que estão completamente descontrolados ali.

Autocolante muito popular na Rússia em 2014 e 2015. A legenda diz “Conseguimos Novamente”.

O fundamento ideológico que sustém o posicionamento pró-russo entre a esquerda é o legado da URSS e da sua vitória na Segunda Guerra Mundial. Uma vez que a Rússia afirma que o governo de Kiev foi conquistado pelos nazis e pela junta, os oponentes do Maidan descrevem-se como combatentes contra o fascismo e a junta de Kiev. Tal induziu simpatia entre a esquerda autoritária – por exemplo, na Ucrânia, incluindo a organização “Borotba”. Nos eventos mais relevantes de 2014, primeiro assumiram o posicionamento de leais ao regime e posteriormente o pró-russo. Em Odessa, a 2 de Maio de 2014, vários dos seus activistas foram assassinados nos motins de rua. Algumas destas pessoas participaram também nos combates nas regiões de Donetsk e Lugansk, e alguns morreram aí.
A “Borotba” descreveu a sua motivação como querendo combater o fascismo. Urgiram à esquerda europeia que se erguesse em solidariedade para com a “República Popular de Donetsk” e a “República Popular de Lugansk”. Depois do email de Vladislav Surkov (estratega político de Putin) ter sido hackeado, foi revelado que os membros do Borotba tinham recebido fundos e tinham sido supervisionados pelo gabinete de Surkov.
Os comunistas autoritários da Rússia apoiaram a sedição das repúblicas por razões semelhantes.
A presença de apoiantes da extrema-direita na Maidan também motivou os anti-fascistas apolíticos a apoiar a “RPD” e a “RPL”. Uma vez mais, alguns deles participaram nos combates nas regiões de Donetsk e Lugansk, e alguns morreram aí.
Entre os anti-fascistas ucranianos, havia os anti-fascistas “apolíticos”, pessoas das subculturas que tinham uma atitude negativa para com o fascismo “porque os nossos avós o combateram”. A sua compreensão do fascismo era abstracta: eles próprios sendo frequentemente politicamente incoerentes, sexistas, homofóbicos, patriotas da Rússia e assim.
A ideia de apoiar as ditas repúblicas obteve uma ampla aceitação entre a esquerda europeia. A destacar entre os seus apoiantes estava a banda rock italiana Banda Bassotti e o partido alemão Die Linke (A Esquerda – NDT). Além de angariar fundos, a Banda Bassotti levou a cabo uma digressão na “Novorrússia”. Estando no Parlamento Europeu, Die Linke apoiou a narrativa pró-russa de todas as maneiras possíveis e organizou videoconferências com os militantes pró-russos, indo à Crimeia e às repúblicas não reconhecidas. Os militantes mais jovens do Die Linke, bem como a Fundação Rosa Luxemburgo (fundação do partido Die Linke) afirmaram que este posicionamento não era unânime a todos os participantes, mas que era disseminado pelos militantes mais influentes do partido, como Sahra Wagenknecht e Sevim Dagdelen.

Banda Bassotti em Donetsk em 2014.

O posicionamento pró-russo não obteve qualquer popularidade entre os anarquistas. Entre afirmações individuais, a mais visível foi a de Jeff Monson, lutador de MMA dos EUA com tatuagens de símbolos anarquistas. Previamente assumia-se como anarquista, mas na Rússia, trabalha assumidamente para o partido do governo, Rússia Unida, e foi eleito deputado à Assembleia [Municipal da cidade de Krasnogorsk – NDT].
Resumindo, no campo da “esquerda” pró-russa vimos a obra dos serviços especiais russos e as consequências da incapacidade ideológica. Após a ocupação da Crimeia, funcionários do FSB russo abordaram anti-fascistas e anarquistas locais, oferecendo-se para os autorizar a continuar as suas actividades, mas sugerindo que doravante incluíssem a ideia de que a Crimeia devia ser parte da Rússia na sua agitação. Na Ucrânia, há poucos grupos activistas que se posicionem como anti-fascistas embora expressando-se como pró-russos; muitas pessoas suspeitam que trabalham para a Rússia. A sua influência na Ucrânia é residual, mas os seus militantes servem os propagandistas russos como “delatores”.
Há também ofertas de “cooperação” da embaixada russa e de membros pró-russos do Parlamento como Ilya Kiva. Tentam jogar a cartada da atitude negativa para com nazis como o batalhão Azov e oferecerem-se para pagar às pessoas para que mudem de posicionamento. Até agora, só Rita Bondar admitiu ter recebido dinheiro assim. Costumava escrever para a comunicação social anarquista e de esquerda, mas devido à necessidade de dinheiro começou a escrever sob pseudónimo para as plataformas de comunicação social do propagandista russo Dmitry Kiselev.
Na própria Rússia, testemunhamos a eliminação do movimento anarquista e a ascensão dos autoritários comunistas que estão a correr com os anarquistas da subcultura anti-fascista. Um dos momentos recentes mais flagrantes foi a organização do torneio anti-fascista em 2021, em memória do “soldado soviético”.

Há a Ameaça de uma Guerra de Larga Escala com a Rússia? O Posicionamento Anarquista

Há cerca de dez anos, a ideia de uma guerra de larga escala na Europa iria parecer loucura, uma vez que os Estados seculares europeus no século XXI tentam manter a sua fachada de “humanismo” e mascaram os seus crimes. Quando acabam por participar em operações militares, fazem-no algures bem longe da Europa. Mas no que toca à Rússia, testemunhamos a ocupação da Crimeia e os subsequentes falsos referendos, a guerra em Donbass e a queda do voo MH17. A Ucrânia sofre constantemente com ataques hackers e ameaças de bomba, não só em edifícios do Estado, mas também em escolas e jardins de infância.
Em 2020 na Bielorrússia, Lukashenko declarou-se ousadamente como vendedor das eleições com um resultado de 80% dos votos. As insurreições na Bielorrússia deram azo até a uma greve por parte dos propagandistas bielorrussos. Mas após a chegada de aviões da FSB russa, a situação alterou drasticamente e o governo bielorrusso teve sucesso em suprimir violentamente os protestos.
No Cazaquistão desenrolou-se um cenários semelhante, mas ali os exércitos regulares da Rússia, Bielorrússia, Arménia e Quirguistão foram trazidos para auxiliar o regime a suprimir a revolta ao abrigo do TOCS (Tratado da Organização Colectiva de Segurança).
Os serviços especiais russos atraíram refugiados da Síria para a Bielorrússia com o intuito de criar um conflito na fronteira com a União Europeia. Também se desvendou que um grupo do FSB russo estava envolvido em homicídios políticos utilizando armas químicas – o já familiar “novichok”. Além de Skripals e Navalny, também assassinaram outras figuras políticas na Rússia. O regime de Putin responde a todas as acusações afirmando “não fomos nós, estão todos a mentir”. Entretanto, o próprio Putin escreveu um artigo há meio ano no qual constata que russos e ucranianos são uma só nação e devem estar juntos. Vladislav Surkov (um estratega político responsável pela política estatal russa, ligado aos governos fantoches das ditas RPD e RPL) publicou um artigo onde declarava que “o império deve expandir-se, caso contrário morrerá”. Nos últimos dois anos na Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão o movimento de protesto tem sido brutalmente reprimido e a comunicação social independente e da oposição tem sido destruída. Recomendamos que leiam mais acerca das actividades da Rússia aqui.
Tendo tudo isto em consideração, a probabilidade de uma guerra de larga escala é alta – ainda mais este ano do no ano passado. Mesmo os analistas mais perspicazes provavelmente não conseguirão prever quando irá começar. Talvez uma revolução na Rússia aliviasse a tensão na região; contudo, como escrevemos acima, o movimento de protesto ali tem sido sufocado.
Os anarquistas na Ucrânia, na Bielorrússia e na Rússia na sua maioria apoiam a independência da Ucrânia, seja directa ou implicitamente. Isto deve-se a que, mesmo com toda a histeria nacional, corrupção e amplo número de nazis, comparada com a Rússia e os países por esta controlados, a Ucrânia parece uma ilha de liberdade. Este país mantém-se um “fenómeno único” na região pós-soviética com a possível substituição do presidente, um Parlamento com um poder mais que nominal e o direito pacífico à reunião; em alguns casos, com alguma atenção adicional por parte da sociedade, os tribunais por vezes até funciona de acordo com o seu respectivo protocolo. Dizer que isto é preferível à situação na Rússia não é dizer nada de novo. Como escreveu Bakunine, “estamos plenamente convictos de que a república mais imperfeita é mil vezes melhor que a monarquia mais iluminada.”
Temos muitos problemas na Ucrânia, mas é mais provável que esses problemas se resolvam sem a intervenção da Rússia.
Valerá a pena combater as tropas russas em caso de invasão? Acreditamos que sim. As opções que os anarquistas ucranianos estão a ponderar agora incluem juntar-se às Forças Armadas da Ucrânia, participando na defesa territorial, em guerrilha e em voluntariado.
A Ucrânia está agora na linha da frente da luta contra o imperialismo russo. A Rússia tem planos a longo prazo para destruir a democracia na Europa. Sabemos que tem sido dada pouca atenção a este perigo na Europa. Mas se seguirmos as afirmações de políticos de alto perfil, das organizações de extrema-direita e dos comunistas autoritários, passado algum tempo reparamos que já existe uma ampla rede de espionagem na Europa. Por exemplo, alguns executivos públicos de relevo, findo o mandato, são colocados na petrolífera estatal russa (Gerhard Schröder, François Fillon).
Consideramos os slogans “Dizer Não à Guerra” e “Guerra dos Impérios” como sendo ineficazes e populistas. O movimento anarquista não tem qualquer influência neste processo, como tal esse tipo de afirmações não mudam seja o que for.
O nosso posicionamento baseia-se no facto de não querermos fugir, não querermos ser reféns e não querermos morrer sem dar luta. Podem olhar para o Afeganistão para ver o que significa o “Digam Não à Guerra”: quando os taliban avançam, as pessoas fogem em massa, morrem no caos dos aeroportos e os que ficam para trás são aniquilados. Isto descreve o que está a acontecer na Crimeia e devem imaginar o que irá acontecer depois da invasão da Rússia noutras regiões da Ucrânia.

Afeganistão, 2021: pessoas tentam entrar num avião da NATO para fugir aos taliban.

Quanto à atitude para com a NATO, os autores deste textos dividem-se em duas visões. Alguns de nós têm uma abordagem positiva perante esta situação. É óbvio que a Ucrânia sozinha não consegue rebater a Rússia. Mesmo tendo em consideração o grande número do movimento de voluntários, são necessárias armas e tecnologia de ponta. Fora a NATO, a Ucrânia não tem quaisquer aliados que possam auxiliar nisto.
Aqui, podemos recordar a história do Curdistão sírio. Ali viram-se obrigados a colaborar com a NATO contra o Estado Islâmico – as únicas alternativas eram fugir ou morrer. Estamos todos cientes que o apoio da NATO num instante pode desaparecer se o Ocidente tiver novos interesses ou conseguir negociar alguns compromissos com Putin. Mesmo agora, a auto-administração vê-se forçada a colaborar com o regime de Assad, compreendendo que não têm grandes alternativas.
Uma possível invasão russa obrigará o povo ucraniano a procurar aliados na luta contra Moscovo. Não nas redes sociais, mas no mundo real. Os anarquistas não têm recursos suficientes na Ucrânia ou onde quer que seja para reagir eficazmente à invasão do regime de Putin. Portanto, temos de pensar em aceitar o apoio da NATO.
A outra visão, que outros que colaboraram neste grupo de escrita subscrevem, é que tanto a NATO como a UE, fortalecendo a sua influência na Ucrânia, irão cementar o actual sistema de “capitalismo selvagem” no país e tornar o potencial para a revolução social ainda menos plausível. No sistema do capitalismo global, cujo porta-bandeira são os EUA que lideram a NATO, a Ucrânia está destinada a ser uma humilde fronteira: um fornecedor de mão-de-obra barata e recursos baratos. Como tal, é importante que a sociedade ucraniana perceba a necessidade de ser independente de todos os imperialistas. No contexto da capacidade de defesa do país, a ênfase não deve ir para a importância da NATO no apoio e na tecnologia que pode fornecer ao Exército regular, mas no potencial da sociedade se organizar em guerrilhas de resistência de base.
Consideramos que esta guerra é principalmente contra Putin e os regimes sob seu controlo. Além da motivação mundana de não querer viver sob uma ditadura, vemos muito potencial na sociedade ucraniana, que é a mais eficaz, independente e rebelde da região. A longa história da resistência do seu povo ao longo dos últimos trinta anos são prova sólida disto. Tal dá-nos esperança de que o conceito da democracia directa encontre aqui um solo fértil.

A Situação Actual dos Anarquistas na Ucrânia e os Novos Desafios

O ter estado de fora durante a Maidan e a guerra tiveram um efeito desmoralizante no movimento. O alcance diminuiu ainda mais quando a propaganda russa monopolizou o termo “anti-fascismo”. Devido à presença de símbolos da ex-URSS entre os militantes pró-russos, a atitude perante a palavra “comunismo” foi extremamente negativa, até mesmo a combinação “anarco-comunismo” foi mal recebida. As declarações contra a extrema-direita pró-ucraniana lançou a sombra da dúvida sobre os anarquistas aos olhos das pessoas comuns. Houve um acordo silencioso de que a extrema-direita não atacaria os anarquistas nem os anti-fascistas se estes não exibissem a sua simbologia nas manifestações e acções semelhantes. A direita tinha muitas armas à sua disposição. A situação criou uma sensação de frustração; a polícia não funcionava bem, portanto era fácil ser assassinado sem quaisquer consequências. Por exemplo, em 2015, assassinaram o activista pró-russo Oles Buzina.
Tudo isto encorajou os anarquistas a tomar uma abordagem mais cautelosa.
O submundo radical começou a desenvolver-se a partir de 2016; começaram a surgir notícias acerca de acções radicais. Apareceram recursos entre os anarquistas radicais que explicavam como comprar armas e como construir abrigos, em contraste com o que havia antes, onde estavam limitados a meros cocktails molotov.
No meio anarquista, tornou-se aceitável o porte de arma legal. Começaram a surgir vídeos de campos de treino anarquistas onde eram utilizadas armas de fogo. Ecos destas alterações chegaram à Rússia e à Bielorrússia, o FSB liquidou uma rede de grupos anarquistas que tinha armamento legal e praticava airsoft. Os detidos foram torturados com fios eléctricos para que confessassem actos de terrorismo, e foram condenados a penas de 6 a 18 anos. Na Bielorrússia, durante os protestos de 2020, um grupo de anarquistas rebeldes com o nome “Bandeira Negra” foi detido enquanto tentava cruzar a fronteira com a Ucrânia. Com eles tinham uma arma de fogo e uma granada; de acordo com o testemunho de Igor Olinevich, que afirmou ter comprado a arma em Kiev.

O grupo anarquista rebelde “Bandeira Negra”

A abordagem obsoleta da agenda económica anarquista também mudou: antes, a maior parte trabalhava em empregos mal pagos “junto dos oprimidos”, agora estão a tentar encontrar empregos com bons ordenados, normalmente no sector das TI.
Os grupos anti-fascistas de rua voltaram ao activo, envolvendo-se em acções de retaliação contra os ataques nazis. Entre outras coisas, organizaram o torneio “No Surrender” entre lutadores antifa e lançaram um documentário com o título “Capuzes”, acerca da fundação do grupo antifa de Kiev. (Estão disponíveis legendas em inglês.)
O anti-fascismo na Ucrânia é uma frente importante, pois além de um grande número de activistas de extrema-direita local, muitos nazis famosos mudaram-se da Rússia para aqui (incluindo Sergei Korotkikh e Alexeu Levkin) bem como da Europa (tais como Denis “White Rex” Kapustin) e até mesmo dos EUA (Robert Rando). Os anarquistas têm vindo a investigar as actividades da extrema-direita. Existem grupos activistas de vários tipos (anarquistas clássicos, anarquistas queer, anarco-feministas, Food Not Bombs, iniciativas eco e assim), bem como pequenas plataformas de informação. Recentemente, surgiu um recurso arreigadamente anti-fascista no Telegram, @uantifa, com publicações duplicadas em inglês.
Hoje, as tensões entre grupos estão lentamente a atenuar, recentemente houve muitas acções em conjunto e colaboração em conflitos sociais. A maior sendo a campanha contra a deportação do anarquista bielorrusso Aleksey Bolenkov (que conseguiu ganhar em tribunal contra os serviços especiais russos e permanecer na Ucrânia) e a defesa de um dos distritos de Kiev (Podil) de rusgas da polícia e ataques da extrema-direita.
Ainda temos muito pouca influência na sociedade como um todo. Tal deve-se em grande parte ao próprio conceito de organização e de estruturas anarquistas ter sido ignorado durante muito tempo. (Na suas memórias, Nestor Makhno também se queixou destas limitações depois da derrota dos anarquistas). Os grupos anarquistas foram rapidamente esmagados pela SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia) ou pela extrema-direita.
Agora saímos da estagnação e estamos a evoluir, e como tal antecipamos mais repressão e novas tentativas por parte da SBU para controlar o movimento.
Nesta altura, o nosso papel pode ser descrito como sendo o das abordagens e perspectivas mais radicais do campo democrático. Os liberais preferem fazer queixa às autoridades quando são atacados quer pela polícia quer pela extrema-direita, os anarquistas preferem colaborar com outros grupos que padeceram com um problema semelhante e defender locais ou eventos quando há a probabilidade de um ataque.

Os anarquistas estão agora a tentar criar laços de base horizontal na sociedade, com base em interesses comuns, de modo a que as comunidades possam resolver os seus problemas, incluindo a autodefesa. Tal difere bastante da prática política ucraniana habitual, na qual normalmente se prega que nos devemos unir em redor de organizações, representantes ou a polícia. É frequente as organizações e os representantes serem subornados e as pessoas que se uniram em seu redor são enganadas. A polícia pode, por exemplo, defender eventos LGBT, mas chatear-se com esses activistas se participarem num motim contra a violência policial. Na realidade, é graças a isto que vemos potencial nas nossas ideias – mas se rebentar a guerra, o principal será novamente a nossa capacidade de participar num conflito armado.

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