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Terça-feira, Novembro 29, 2022

Como foi criado o regime da Ucrânia

Os Nossos Autores

João Bernardo

Theodore Kaczynski

Há uma discussão permanente sobre se aquilo que aconteceu em Kiev em 2014 foi uma revolução ou um golpe apoiado pelos Estados Unidos e União Europeia. Nesse sentido, é útil regressar ao passado e esmiuçar alguns factos que levaram à conformação do actual regime ucraniano.

Comecemos lembrando que, durante a chamada Revolução Laranja, em 2004/2005, na Ucrânia, segundo o The Guardian, os partidos Democrata e Republicano, o National Democratic Institute, o Departamento de Estado, a USAid, a ONG Freedom House e o Open Society Institute gastaram cerca de 14 milhões de dólares a patrocinar essa tentativa de empurrar o país para a esfera ocidental. A estratégia foi bem sucedida. Viktor Yushchenko, candidato pró-Ocidente, ganhou as eleições presidenciais.

Depois de acusações de corrupção, Yushchenko perde as eleições, em 2010, para Víktor Yanukóvytch, candidato distanciado das posições ocidentais. Mas, novamente, surgem acusações de corrupção, desta vez contra Yanukóvytch. No fim de Novembro de 2013, o então governo ucraniano decidiu não assinar um acordo de associação com a UE, que deveria ser subscrito na Conferência de Vilnius. O acordo representava uma capitulação de tal forma evidente que impunha, por exemplo, a libertação da ex-primeira-ministra Iulia Timochenko, condenada a sete anos de prisão por corrupção e abuso de poder.

Os protestos na Praça Maidan começaram por ser pacíficos e contestavam o governo. Sem qualquer impedimento, os senadores norte-americanos John McCain e Chris Murphy reuniram com a oposição, distribuíram comida e discursaram aos manifestantes. Algo que seria impensável se se tratassem de representantes russos, chineses ou cubanos numa manifestação em qualquer país ocidental.

Em Janeiro, rebentaram os confrontos. À frente dos ataques, na Praça Maidan, segundo a BBC, estavam os membros do neonazi Sector Direito, conhecidos por atacarem a população ucraniana russófona. Também o partido fascista Svoboda e o Congresso dos Nacionalistas Ucranianos.

No mês seguinte, a secretária de estado norte-americana Victoria Nuland e o embaixador dos EUA em Kiev foram apanhados a conversar por telefone sobre qual deveria ser o governo depois da queda de Yanukovych. A conversa foi tornada pública em meios como a BBC e nela Victoria Nuland chega a dizer “que se foda a União Europeia” numa referência à reacção menos célere de Bruxelas em relação aos acontecimentos.

Depois da saída de Yanukovych, num cenário de perseguição por movimentos de extrema-direita da comunidade russófona e dos seus símbolos, ganhou as eleições Petro Poroshenko, um dos homens mais ricos do país. E eis que a escolha do seu governo traduz bem as opções políticas de quem encabeçou aquilo que ficou conhecido como golpe para uns e revolução para outros.

No dia 2 de Dezembro de 2014, três estrangeiros receberam a cidadania ucraniana à pressa para se tornarem governantes de um país que não era o seu. Foi o caso de Natalie Jaresko, uma norte-americana, filha de ucranianos que nasceu em Chicago, e que nesse mesmo dia foi empossada ministra das Finanças. Foi o caso de Aivaras Abromavičius, um lituano que viveu nos Estados Unidos, Rússia e Suécia, e que foi empossado ministro da Economia. E também de Alexander Kvitashvili, um georgiano que estudou nos Estados Unidos e que foi empossado ministro da Saúde. Em 2015, Petro Poroshenko tomou a bizarra decisão de tornar o ex-presidente, georgiano Mikheil Saakashvili, seu conselheiro e, posteriormente, deu-lhe a cidadania ucraniana antes de o nomear governador de Odessa.

Para além de aproximar a Ucrânia da NATO e da União Europeia, Petro Poroshenko normalizou a russofobia e o fascismo. Instituiu o ucraniano como língua única, fechou canais russos, proibiu o Partido Comunista, deu o estatuto de herói a Stepan Bandera, colaboracionista nazi durante a Segunda Guerra Mundial, reconheceu como veteranos de guerra todos os ucranianos colaboradores com o nazismo, integrou milícias neonazis no exército. Deixou ainda de pagar pensões a idosos de Donbass enquanto dizia que ia bombardear aquela região para tornar a vida da população num inferno e fazer com que as crianças russófonas ficassem fechadas em abrigos em vez de irem à escola.

Bruno Carvalho
Publicado originalmente no Manifesto 74 a 23 de Fevereiro de 2022.

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