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Quarta-feira, Dezembro 7, 2022

Entrevista histórica: John Shuttleworth (Mother Earth News)

Os Nossos Autores

João Bernardo

Theodore Kaczynski

Inauguramos a secção Entrevistas Históricas traduzindo a primeira entrevista do Plowboy – nome genérico utilizado pela redacção da Mother Earth News para assinar as suas entrevistas – com John Shuttleworth, fundador da revista pioneira do sobrevivencialismo e da autossuficiência dos EUA unindo várias gerações de sobrevivencialistas, revista essa que assinalou o seu 50º aniversário em 2020 e é uma grande inspiração para a Prontidão & Sobrevivência.

O primeiro número da Mother Earth News continha uma colecção de artigos informativos tanto para iniciantes como para quinteiros experientes. O primeiro número da The Mother Earth News, como devem recordar, não tinha qualquer “explicação”. Tal foi propositado: a Mother pensou que podíamos decidir – sem floreados nem bandeiras de conveniência – se a queríamos ou não.

Mas sucede que tal incomodou algumas pessoas que não só queriam a Mother… mas também alguma informação de fundo. Assim sendo aqui está a primeira (e, possivelmente, a última) entrevista do Plowboy da Mother Earth News… John Shuttleworth, director-editor da TMEN, está do outro lado.

Afinal, de que trata a TMEN?

A revista dedica-se só a duas coisas: devolver a vida às pessoas e travar o estupro do planeta.

Que quer dizer por “devolver a vida às pessoas”?

Isso mesmo. Quero que as pessoas dependam de si mesmas – que todos assumam o controlo e o rumo das suas próprias vidas. Abraham Lincoln resumiu-o bem: “do mesmo modo que jamais teria querido ser escravo, jamais terei um.” Quero ser livre, logo tenho todo o interesse em ajudar os outros a também serem livres.

Todos?

Tudo e todos. Pretos, brancos. Pessoas vermelhas, castanhas e amarelas. Homens, mulheres, crianças. Animais, aves e peixes. Plantas. Todo e qualquer ser vivo. Todas as vidas são sagradas e a Deus pertencem. Temos que adoptar a perspectiva mais abrangente possível.

Até parece que anda metido com algumas religiões orientais.

Talvez. Sou muito ignorante acerca da maior parte dos sistemas criados pelo homem. Parecem-se sempre demasiado arbitrários e irrelevantes. Gosto de viver em primeira mão, sem a vida ser filtrada pela visão de terceiros. A percepção global e o estilo de vida reverente de algumas das tribos ameríndias sempre me pareceram uma religião particularmente satisfatória. De qualquer modo, também nunca me meti nisso.

Que idade tem?

31. Nasci a 21 de Julho de 1937 no final da tarde caso alguém me queira oferecer uma leitura astrológica. Sou Caranguejo quase Leão. Tem-me causado acérrimas batalhas internas.

Tem grande fé na astrologia?

Nem por isso. Mas acredito naquilo que dá provas de si mesmo, e até me mostrarem a raiz astrológica para a minha dicotomia pessoal, nunca consegui compreender o que me causava tanto incómodo interno. Esta ideia Caranguejo-Leão parece funcionar, por isso utilizo-a.

Quais são os seus antecedentes académicos?

Doze anos na escola agrária do Indiana. Formei-me como delegado de turma, o que não era grande coisa visto que éramos só 12 alunos. Com base num teste de aptidões de âmbito estatal, recebi uma bolsa para uma licenciatura de quatro anos em qualquer faculdade do Indiana. Frequentei a Universidade Estatal de Ball (na altura, Faculdade de Professores de Ball) visto que era perto da quinta da família e assim consegui continuar a viver em casa e ajudar nas tarefas. Passados dois anos desisti… em 1958.

Porquê?

Pela mesma razão que as pessoas desistem de estudar hoje em dia: o aparelho educativo do sistema treina belas peças de substituição para o complexo militar-industrial e cria uns consumidores magníficos, mas não nos ensina grande coisa quanto a viver uma vida que nos satisfaça nem a desenvolver o potencial humano.

E isto foi em 1958?

Certo. Nos anos mortos de Eisenhower. Os anos do The Organization Man. E era extremamente solitário desistir de estudar nessa altura. Passei os dez anos seguintes em 30 ou 40 mudanças de endereço e em 80 ou 100 empregos. Por fim, há dois anos, quando estava a viver na Carolina do Norte, conheci e casei com a pequena (1,50m, 37kg.) Jane.

Quando lhe surgiu pela primeira vez a ideia para a Mother?

Começou há muito, muito tempo atrás, mas não se desenvolveu por inteiro. Sempre mantive ficheiros acerca de estilos de vida alternativos e, há cerca de cinco anos, escrevi um manual com 200.000 palavras intitulado “Manual do Viajante, Vagabundo e Andarilho”.

Que lhe aconteceu?

Um agente literário ficou entusiasmado, mas isto foi mesmo antes disto se tornar numa moda e na altura ainda pensava que era uma de muito poucas pessoas no mundo interessadas em saltar fora do sistema. Fiquei tão deprimido, a trabalhar numa agência noticiosa em Nova Iorque, que acabei por queimar o manuscrito. Gostava de ainda o ter. Tinha lá muita coisa boa.

E como é que isso se transformou na Mother?

A responsabilidade é do Stewart Brand. Fui inspirado pelo The Whole Earth Catalog.

Uma publicação magnífica.

Sim. Avassaladora e tremendamente útil. Mostra-nos o que o homem certo com uma ideia e $25.000 consegue fazer. E não o digo jocosamente. O Brand deu um belo exemplo a todos os políticos egocêntricos e desajeitados do país.

Quer dizer…

Estou a dizer que precisamos de menos políticos e mais Stewart Brands. Menos drones e mais membros produtivos (no sentido mais básico do termo) da sociedade. Concordo com Fuller: a política deixou de ser relevante. De facto, em cada vez mais coisas hoje em dia parece-me que a política e os políticos já não só agravam o problema, são o problema.

Regressando à Mother

Bem, ao longo dos anos enchi ficheiros com material acerca de pessoas que tinham tido sucesso em abandonar o sistema, começando a viver como bem queriam. Queria partilhar essa informação. Uma publicação paralela e que apoiasse a obra do WEC do Brand pareceu-me boa ideia.

Foi por isso que escolheu um título que contém a palavra “Terra”?

Não. Queria chamar-lhe Boletim do Grande Chefe Joseph. Ainda acho que o Chefe Joseph, dos índios Nez Perce, é um dos parcos heróis genuínos do continente norte-americano. Mas a Jane agarrou-se ao título The Mother Earth News achando que era mais universal e menos politizado. Como sempre, tinha razão.

Então a ideia original era ser um boletim.

Exacto. Tínhamos muito pouco dinheiro para investir na publicação e vislumbrei uma folha de 10 ou 12 páginas que eu conseguisse mimeografar em casa. Então comecei a querer meter cada vez mais informação, começamos a ver números e descobrimos que conseguíamos imprimir 64 páginas 10.000 vezes numa prensa offset da Webb por um valor mais barato do que uma pequena tipografia imprimir 2.000 exemplares de um livreto com 24 páginas. Foi assim que acabamos com 10.000 exemplares de uma revista com 64 páginas.

E depois o que é que aconteceu?

Depois olhamos para aquela pilha de 10.000 revistas e começamos a pensar se não teríamos cometido um erro enorme. Na altura só tínhamos 100 assinaturas já pagas.

Então que fizeram?

Enviamos exemplares aos nossos assinantes e a todas as pessoas que tinham pedido uma amostra e a todos que nos lembramos. Passei a pente fino uma pilha de jornais alternativos e recortei os anúncios de todas as lojas principais, de alimentos orgânicos e papelarias que encontrei e enviamos amostras.

Foram duas semanas de um silêncio enlouquecedor, e depois começaram a chegar encomendas de assinaturas, os comerciantes e os distribuidores começaram a telefonar e apareceram algumas resenhas na imprensa alternativa. Uma das maiores revistas do país está agora interessada em escrever um artigo, pelo menos uma rádio FM está a dar-nos tempo de antena e o Wall Street Journal entrevistou-me pelo telefone a semana passada. Está tudo a começar a brotar.

E os 10.000 exemplares?

Temos cerca de 2.000 agora. Não vendemos os outros 8.000 todos, mas as cópias gratuitas que distribuímos provaram ser um meio muito eficaz de publicidade.

Sei que recusaram dois distribuidores que queriam distribuir a TMEN a nível nacional.

Sim. Até fomos a Nova Iorque falar com um deles. Um cavalheiro muito simpático, mas olhamos para os números e decidimos que é melhor deixar a TMEN crescer de modo orgânico da mesma maneira que o WEC cresceu.

Eis porquê:

Se colocarmos a TMEN num circuito já estabelecido, estamos a um passo de nos afastarmos das pessoas com as quais queremos estar em contacto. Esse circuito fica com uma grande fatia do dinheiro que estamos a gerar. É dinheiro que ficaria fora do movimento dos estilos de vida alternativos. Fora isso, teríamos uma data de recolha na qual cada número seria descartado, uma longa espera pela nossa parte e muitas outras chatices.

Por outro lado, se lidarmos com pessoas do movimento o dinheiro gerado fica no movimento. Por exemplo, a Acção Ecologista da Zona de Boston está a ajudar uma cooperativa com o dinheiro das vendas da TMEN. Estamos muito mais próximos das pessoas. Uma vez que muita da informação na TMEN é intemporal podemos deixar de datar a publicação e limitar-nos a numerá-la, sem nos preocuparmos com datas de recolha. Podemos acabar por ter 6 ou 8 números diferentes em exibição nas lojas. Temos um ganho percentual muito maior se nos mantivermos fora do circuito tradicional das revistas.

Mas não conseguem obter uma súbita exposição nacional.

Não. Mas é o preço a pagar.

Alguém se tem queixado do vosso preço de capa?

Não tivemos uma única queixa acerca do primeiro número assim que viram a revista. Algumas pessoas questionaram mais ou menos o preço antes da TMEN sair… mas depois não houve quaisquer queixas. Pode haver algumas com este número especial, mas estamos a tentar manter a publicidade no mínimo e o dinheiro tem de vir de algum lado.

E regressamos ao pagamento do dízimo.

Exacto. Se a malta quer 6o ou 70 páginas de carne por 60¢ ou 70¢, vamos ter que encher 20 páginas de anúncios de chapa. E, mais dia menos dia, a TMEN torna-se noutra revista de anunciantes. Se a queremos manter como publicação popular, as pessoas têm de pagar o preço. Isto não quer dizer que não vamos ter publicidade na Mother. Vamos ter. Mas não muita e só iremos aceitar publicidade paga de produtos que sabemos que são bons… produtos que vão mesmo ajudar os nossos leitores ou poupar-lhes um tostão.

É a diferença entre prestar um serviço às pessoas da Mother e “providenciar o público” a qualquer anunciante com dinheiro.

Exactamente. Já recusamos imenso lixo… e temos uma dívida de quase $4.000. Bem precisávamos do pão.

Têm uma dívida de quase $4.000?

Sim. E eu e a Jane trabalhamos 12-16 horas por dia, 7 dias por semana. Por isso sentimos que estamos a pagar o dízimo.

A TMEN vai conseguir aguentar-se?

A perspectiva é cada vez melhor. Principalmente agora que nos regulamos por uma periocidade bimestral.

Mother agora vai sair a cada dois meses?

Sim. Conseguimos imprimir uma quantidade maior de informação relevante todos os anos se publicarmos seis números grandes, em vez de doze números mais pequenos. Com doze despendíamos metade do tempo a debater-nos com os prazos. Desta maneira conseguimos fazer um trabalho mais produtivo para um número maior de pessoas. As assinaturas anuais estão a ser prolongadas por isso ninguém fica desfalcado.

Porque é que o 2º número saiu tão atrasado?

Porque um distribuidor nos fez andar aos saltos. Queria que republicássemos uma nova versão do nº 1 e que entrássemos numa periodicidade trimestral. Perdemos imenso tempo com isso antes de decidirmos cingir-nos às pessoas que tínhamos.

Quais são os vossos planos para o futuro?

Mal a Mother esteja bem gorda e afinada, temos umas quantas ideias paralelas que gostávamos de experimentar, todas concebidas, uma vez mais, para ajudar as pessoas a libertarem-se de maneiras grandes ou pequenas. Estamos só no princípio, mas vamos fazer isto um passo de cada vez.

Publicado a 1 de Março de 1970

© Mother Earth News, todos os direitos reservados. Publicado sobre expressa autorização do actual editor.

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